Muitas vezes, no consultório, indago o paciente: você tem orgasmo? “Às vezes”, “de vez em quando”, “tenho, sem problemas”, “Ah? O que é isso?”… Não raro o paciente desconhece esse termo. Mas os que conhecem entendem como uma ótima sensação, algo desejável de ser conhecido e apreciado.

Na literatura médica e mídia leiga pouco se falava sobre esta questão, mas com a inclusão da satisfação sexual no “setlist” de qualidade de vida e saúde pela Organização Mundial de Saúde1, 2 o assunto tem virado a pauta de diversas frentes de estudo na área da sexologia. 1, 2, 3, 4, 5

Entende-se orgasmo como o ápice de sensações atingido durante o ato sexual. 2 Difícil defini-lo sem antes ter tido um, pois é uma sensação única e indiscutível. Você sabe que teve. Nas últimas décadas, as mulheres se entenderam capazes de orgasmos múltiplos e possuidoras de um chamado Ponto G que, se estimulado, poderia levá-las há um êxtase total, a ejaculação feminina. GRAFENBERG et al., 1950 sugeriu a existência de um ponto pequeno em uma área extremamente sensitiva localizado no terço superior da abertura vaginal3, supostamente capaz de promover maiores sensações e facilitar uma possível ejaculação e até o orgasmo, inclusive múltiplos. Mais tarde, ADDIEGO et al., 1981 reconheceu e nomeou esse ponto de” Ponto G” em homenagem ao ginecologista alemão Dr. Ernest Grafenberg. 4 Hoje em dia a ginecologia moderna trata esse ponto talvez como mito ainda pouco comprovado, mas a discussão envolvida com o assunto despertou o interesse de maiores entendimentos científicos na função de melhorar e promover o orgasmo. Se já não bastassem as mulheres, agora sabedoras de seus orgasmos múltiplos e ejaculação, os homens também estão entrando nesse rol de estudos “orgásmicos”.  Mas não vem de agora não, pois Kraft-Ebing em 1886 e Hirschfeld em 1944 já deram indícios do fenômeno de múltiplos orgasmo em homens, mas ainda julgando algo patológico. KAHN em 1939 afirmou da possibilidade disso ocorrer.

KINSEY et al., 1948 demostraram ter encontrado esse fenômeno em homens, inclusive o fato tendo mais ocorrido com pré-adolescentes e abaixo dos 35 anos.  DUNN et al., 1989 definiram orgasmo múltiplos masculinos como dois ou mais orgasmos, com ou sem ejaculação, sem ou com período refratário limitado, na mesma relação sexual. É importante ressaltar que para o fenômeno acontecer, pelo menos dois orgasmos devem acontecer, a ejaculação pode não existir, um ou mais orgasmos pode ser combinado com a ejaculação, apenas um pequeno período refratário e os orgasmo devem ocorrer numa única relação sexual. Assim,  estreitaram a definição do termo, diminuindo os viéses dos trabalhos anteriores, os quais eram  baseados em entrevistas e questionários passíveis de interpretações dúbias. Inclusive demonstraram através desta mesma pesquisa que homens mais velhos também eram capazes desta “façanha”, caindo por terra a afirmação de KINSEY.

Parece pouco mas a sociedade em muito avançou no entendimento da fisiologia do orgasmo, e muitos estudos ainda estão por vir, pois nós cientistas do sexo compreendemos a importância da felicidade e satisfação sexual no leito familiar, no casal e  na saúde do ser humano em geral. Num mundo com níveis de estresse alarmantes, mercados de trabalho competidíssimos, o orgasmo fatalmente se tornará uma importante válvula de escape natural do ser humano. Mesmo havendo ainda muita divergência entre os trabalhos, ainda continuarão aparecendo em nosso consultório formas de orgasmos e atividades sexuais ainda não comprovadas, não convencionais e que levarão anos para serem desvendadas, pois a complexidade dessa gostosa e valiosa sensação muitos segredos nos tem a ensinar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. World Health Organization – Promotion of Sexual Health (Recommendations for action), Guatemala 2000.
  2. Kinsey
  3. Ballone GJ – A Vida Sexual (do Brasileiro) – in. PsiqWeb, Internet, disponível em <http://sites.uol.com.br/gballone/sexo/revolusexo.html>, revisto em 2004
  4. Rabinerson D, Horowitz E: G-spot and Female Ejaculation: Fiction or Reality?, Harefuah 145-147, 2007.
  5. Hines T. M.: The G-spot: A Modern Gynecologic Myth. Am J Obstet Gynecol.; Aug 359-362; 2001.
  6. Ramos Brieva JA. – Data About Prevalence of Female Ejaculation; Aten Primaria. Feb 208-209; 2001.
  7. Syed R. : Knowledge of The “Gräfenberg Zone” and Female Ejaculation in Ancient Indian Sexual Science. A medical history contribution] Sudhoffs Arch. 1999 1999;83(2) 171-190