Trabalho com obstetrícia e a questão “tipo de parto” causa muita polêmica durante o pré-natal. O governo faz propaganda pró parto vaginal, mas na realidade a cesariana tem sido largamente realizada nos serviços particulares.
Na contra-mão, nas maternidades públicas, os índices de parto normal são bem maiores. O que, na realidade, mostra essa discrepância?
Em primeiro lugar, pouco se fala da realidade de vida de um obstetra. Ganha-se pouco e trabalha-se muito. A quantidade de processos que envolve a especialidade é gigantesca. Assim, muitos profissionais preferem não arriscar e já fazer cesariana logo, pois o parto vaginal envolve mais risco aos médicos. Sem contar o tempo que esse tipo de parto toma do obstetra. É comum escutar no meio: “Se quiser parto normal que procure outro. Eu não faço.” Também criou-se um jargão que para parto vaginal inclui-se no pacote o sofrimento, a dor, e muitas nos procuram já com o intuito de realizar cesariana de cara. “Nem pensar em parto normal. Normal é cesariana.” Outra idéia que muitas pacientes nos passam é a separação entre ricos e pobres: este é no hospital público, parto normal, enquanto os endinheirados escolhem cesariana.
Muitos mitos se criaram e são poucos os obstetras dispostos a discutir com a paciente sobre esse assunto no pré-natal. Aliás, as consultas pré-natais existem justamente para isso, esclarecer as possibilidades e os riscos de cada parto e, a partir disso, a própria gestante escolher o seu próprio caminho. Não existe “o melhor parto”, mas sim o que mais se encaixa a cada paciente. Também não posso me esquecer do que os convênios médicos vêm fazendo com a obstetrícia. Com planos que acabam exigindo que a grávida faça pré-natal com um obstetra e parto com outro, afastam o vínculo médico-paciente, detonando a qualidade da assistência. O mais adequado é o mesmo médico seguir todo o pré-natal e realizar o parto, mas com esses tipos de contratos de convênios médicos, a paciente acaba tendo que desembolsar dinheiro particular se deseja contar com esse “luxo”. Muitas gestantes não sabem disso na adesão contratual e só descobrem quando se aproxima o parto, gerando muito mais ansiedade e prejudicando o andamento gestacional.
Acredito sim que todas as mulheres têm direito de escolha. Maternidades públicas ou particulares que “forçam” o parto vaginal ou obstetras que só realizam um tipo de parto deveriam repensar sua conduta. O extremismo só trará seqüelas. Ambos os partos, incluindo o temido fórceps, têm indicações e devem ser discutidos claramente com a gestante e sua família durante o pré-natal. Qual a melhor escolha? Aquela que mais se encaixa ao perfil individual de cada paciente. É preciso analisar caso a caso e se chegar num senso comum, numa relação de confiança médico-paciente. Num parto onde obstetra e gestante se conhecem desde o começo da gestação, existe mais segurança, confiança, menos ansiedade e, assim, melhores resultados. Seja cesariana, normal ou fórceps, haverá uma família satisfeita e feliz com a nova vida que chegou.
Que assim seja!
Dr. Gustavo Maximiliano Setembro/2009
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