Passamos do ano 2000 e o desenvolvimento de estudos relacionados à sexualidade humana vem trazendo à tona diversas formas diferentes de se obter prazer. Numa sociedade preconceituosa e julgadora, muitos “praticantes alternativos” têm se sentido acuados e descriminados com sua forma de excitação.

Umas delas, das quais falarei nesse texto, são as práticas fetichistas, fetichistas transvésticas e sadomasoquismo (BDSM). Fetichismo é o (necessidade de) uso de objetos inanimados e/ou partes do corpo não genitais (pés, mãos, por exemplo) e/ou vestimentas (calcinha, sapatos) para atingir excitação sexual ou orgasmo. Coloquei a palavra” necessidade” em parênteses de propósito justamente porque aí se encontra uma importante discussão, pois se uma pessoa consegue ter desejo, excitação e orgasmo sem seus “objetos” fetichistas ela é considerada doente? Precisa mesmo de tratamento? O mesmo vale para os fetichistas transvésticos ( pessoas que sentem prazer em se vestir com roupas do sexo oposto e não necessariamente são homossexuais) e o sadomasoquismo ( pessoas que sentem prazer através da” dor e sofrimento” seu ou do parceiro). Existe um grande número de seres humanos que admitem fazer parte desses grupos e estão incomodados com a definição do CID (Classificação Internacional de Doenças), importante manual usado pela medicina, no qual são consideradas pessoas doentes e precisam de tratamento. Segundo eles, praticam com o consentimento do parceiro, sem fazer mal a outrem ou a si mesmo.” Sendo assim, por que há doença?”, questionam. Uma outra classificação importante para a psiquiatria, o DSM ( Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais) já se adiantou e retirou o fetichismo e BDSM inocente do quadro de patologias e é através deste manual que muitos profissionais têm se guiado atualmente. Existe inclusive um grupo de discussão e apresentação de trabalhos científicos na internet (www.revisef65) que visa a retirada do termo patológico para essas práticas, segundo eles, sadias. Mesmo assim muitos profissionais e setores influentes da sociedade insistem em considerá-los como desvios sexuais, parafilias e perversões e passíveis de tratamento. Na verdade, se considerarmos a sociedade como um todo, muitas são as diversidades de práticas sexuais e simplesmente considerá-las patologias não parece ser o melhor caminho. Quem não gostaria que sua parceira vestisse uma calcinha sexy ou uma roupinha de couro de vez em quando? Todos temos nossas preferências e “fetiches”. Freud, em 1905, no seu famoso “Três Ensaios sobre a Sexualidade” já discutia as inúmeras práticas sexuais e a normalidade caso não cause prejuízo alheio ou a si mesmo. Será que mesmo 100 anos depois ainda conseguimos retroceder? Precisamos separar o joio do trigo, pois um homem que esporadicamente se veste de mulher não pode ser classificado da mesma forma que um pedófilo ou pederasta. Também é inegável que muitas outras práticas sexuais estão surgindo e muito há de se evoluir nas classificações das doenças, e tanto a sociedade quanto as ciências médicas não têm acompanhado essa “( r ) evolução” sexológica e social. Em nosso serviço temos estimulado as fantasias sexuais, os fetiches “inocentes”, BDSM (Bondage, disciplina e sadomasoquismo) e transvestismo desde que tragam novas formas de prazer sem prejuízo ao parceiro e que não causem sofrimento clinicamente significativo ou comprometimento no funcionamento social ou em áreas importantes da vida do indivíduo. Não há como considerar doente alguém feliz com sua vida sexual e que ofereça o mesmo ao seu(s) parceiro(s). Partimos do princípio de que um casal satisfeito é um casal feliz, e para isso tentamos ser maleáveis e, por mais esquisito que seja, sem preconceitos. É a mutação do sexo para o bem do prazer humano.
Dr. Gustavo Maximiliano Abril/2009
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