Tenho recebido inúmeros e-mails sobre abortamento, questionando-me sobre o assunto, orientações quanto aos riscos, onde realizar, etc. Sem dúvidas nenhuma essa prática tem aumentado mesmo sendo proibida. Seria mesmo a proibição a melhor maneira de lidar com isso?

Precisamos urgentemente discutir com nossos governantes sobre políticas de saúde que abordem as consequências a essas mulheres, pois, proibido ou não, muitas decidem por correr esse risco. Recentemente um bispo católico apareceu em todos noticiários criticando a atuação médica num caso de aborto. Na verdade a Igreja Católica tem sido um importante entrave na criação de uma política de saúde que privilegie realmente a vida, pois seus conceitos e dogmas não estão conseguindo frear o número de abortamentos provocados e muito menos de adolescentes grávidas. Ao invés de extremismos necessitamos de discussões sadias e afrouxamento de ideologias de ambas as partes evolvidas, a favor ou não. Também já percebemos que métodos contraceptivos chamados comportamentais ( coito interrompido e tabelinha, por exemplo) padecem de muitas falhas e não podem ser os únicos prescritos aos adolescentes para prevenção de gravidezes indesejadas e DST’s.

Estudos mostraram que cada vez mais as mulheres estão menstruando mais cedo, acabando também por iniciar uma vida sexual mais “precocemente” (Fonte: Centers for Disease Control and Prevention) . Sem informações sobre prevenção e em algumas situações favorecidas por programas governamentais que estimulam a multiparidade (como o “bolsa-família”), acabam por engravidar ou adquirir DST’s. Essa é uma tendência não só de países subdesenvolvidos, como por exemplo os EUA que também mostram níveis alarmantes de gravidezes em adolescentes. Outras estatísticas mostram um grande número de segundas gravidezes em jovens de até 19 anos, ou seja, elas continuam sem se prevenir ou sem orientações de saúde.. (Pesquisa Nacional Sobre Demografia e Saúde 1996)

Esse enorme descaso leva mesmo ao aumento dos abortamentos provocados, algo que está se tornando a conduta tomada por diversas gestantes descontentes com sua prenhez. As jovens pobres acabam por ter maiores problemas de saúde devido a falta de assistência e déficits nutricionais enquanto as mais endinheiradas conseguem acompanhamento médico. Inclusive já há uma linha médica de pensamento que fala da redução de danos, ou seja, respeita a lei, não realiza abortos mas orienta a paciente quanto aos danos e efeitos colaterais e a recebe caso seja necessário. Um aborto realizado às escuras pode trazer seqüelas irreparáveis, as mulheres devem saber disso. A escolha é de cada uma delas.

Certos ou errados, extremistas, a favor ou contra, todos temos o dever de iniciar o quanto antes uma nova constituição relacionada ao abortamento. Nossa política de saúde precisa resgatar estatisticamente a quantidade de mulheres que realizam esse procedimento, investir massivamente em informação, principalmente nas escolas, unidades de atenção básica e comunidades mais necessitadas, capacitar profissionais para lidar abertamente com o assunto e discutir com nossos jovens. Chega de hipocrisia e vamos “peitar” isso de frente!

Dr. Gustavo Maximiliano Dutra da Silva março/2009