É muito comum escutar das pessoas que um paraplégico ou tetraplégico se tornou inválido e incapaz de ter relações sexuais e é justamente essa visão que esse texto se propõe a mudar.
Na sociedade contemporânea ocidental está muito incrustada a idéia de uma sexualidade genitalizada, machista e relacionada a força , mobilidade e beleza, e principalmente nós que trabalhamos com sexualidade percebemos que muito da etiologia dos problemas sexuais em geral se inicia com essa crença. O próprio lesionado raquimedular já condena sua vida sexual baseado nesses mesmos princípios. Passados os momentos críticos do trauma, onde o acometido tem sua auto estima muito reduzida, e a aceitação dessa condição, o lesionado começa a perceber que é um ser capaz de se relacionar, tanto socialmente como sexualmente. Alguém que praticamente tem insensível as suas áreas antes consideradas mais eróticas agora tem que se concentrar em outras formas de buscar uma sensação prazerosa, como o gosto, a visão, o cheiro, o olfato e o carinho. É claro que existem vários níveis de lesão e alguns pacientes ainda preservam algumas funções, mas mesmo esses se beneficiam da busca pela sexualidade “diferente”. Coloquei diferente entre aspas porque, na verdade, a sexualidade em qualquer ser humano funciona igual, mas quando uma pessoa não apresenta nenhuma incapacidade tende a impulsionar a sua sexualidade diretamente para a genitália, perdendo a variedade das sensações erógenas possíveis com os cinco sentidos, e é justamente isso que prejudica a qualidade do sexo. Ter relação sexual não significa apenas introduzir um pênis dentro da vagina, mas envolve carícias, preliminares, sensações prazerosas que podem envolver ou não uma penetração. Falando assim até parece que um lesionado não possui ereção, mas possuem sim. Mesmo naqueles cuja medula foi totalmente seccionada ainda sim é possível haver ereções, ejaculação e orgasmo. É claro que com mais dificuldade e menor frequência, mas é possível sim. Dessas três funções as mais prejudicadas são a ejaculação e o orgasmo, tornando a fertilidade masculina um pouco prejudicada nesse sentido, mas não raro a medicina tem encontrado casais que obtiveram filhos após a lesão. No caso da mulher a fertilidade está preservada e em vários casos temos que prescrever anticoncepção para prevenir uma gravidez indesejada. Uma dificuldade comum encontrada é o descontrole dos enfíncteres vesical e anal, presente em alguns tipos de lesionados, mas com o esclarecimento do casal ou do parceiro não acometido e a tomada de condutas para evitar situações desconfortantes durante o ato sexual geralmente ultrapassam esse obstáculo. Senti-me na obrigação de esclarecer sobre esse assunto às pessoas após ter escutado o depoimento de um paciente sobre toda a sua dificuldade após o acidente que sofreu, de sua condição de “inválido” à felicidade sexual e conjugal. Mesmo com o preconceito inerente à sociedade o lesionado raquimedular tem direito e deve correr atrás de sua capacidade sexual; a ciência não tem mais dúvidas sobre essa possibilidade, inclusive sobre a reprodutiva. Portanto, só se torna inválido quem quer. A dificuldade por que passa alguém que sofreu esse tipo de acidente serve de exemplo para muitas pessoas que se sentem “inválidas sexuais “ e, mesmo não tendo nenhuma dificuldade motora, sensitiva e reprodutiva evitam sua felicidade sexual. Também vale para calar muitos que prejulgam os seres humanos que apresentam qualquer grau de lesão raquimedular, os quais são capazes sim de se relacionar, de ser independentes na busca do prazer, à sua moda própria, mas com qualidade e satisfação.
Dr. Gustavo Maximiliano dez/2010
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